quarta-feira, novembro 17, 2010

gonçalo vai à rua

maria sai de casa. maria sai de casa sem casaco. maria sai de casa sem casaco e sem tabaco. maria sai de casa, deixando o tabaco no casaco e esquecendo–se do casaco apoiado nas costas do sofá. maria sai de casa sem casaco e nele o tabaco, calçando chinelos. Maria sai de casa, apressada para trabalhar e apercebe-se, já depois de três passos dados, com pés alagados numa poça de água, salpicada de grossos pingos de chuva peganhenta que veio para a rua com chinelos calçados e sem casaco. e nele o tabaco. volta para trás. na rua corre-se. cruzam-se vultos em fuga, uns mais rápidos e audazes que outros, a confundirem-se com bermas e alpendres, arcadas, carros e árvores. os sobretudos e gabardines, as pernas pesadas, as gotas das golas, os cabelos escorridos, as botas encharcadas, os sapatos luzidios, e o chapinhar destes moldes e pedaços todos, confundidos na chuva, emaranham-se numa rede mal definida. em rotas toscas e atordoadas, a desbravar partículas frias com destino a pousos mais enxutos. a água vem disparada em rajadas densas. maria leva menos de um segundo a dar atrás as mesmas três passadas. mas não rápida o suficiente para evitar a manta de chuva abatida no seu corpo. riu-se. riu-se de não ter saído calçada e vestida. riu-se de não ser suficientemente concentrada nas acções triviais. riu-se com preocupação, para não vincar mais em seu espírito esta inquietação. entrou em casa desassogada. voltou à banheira que tinha largado há não mais que pouco tempo e encharcou-se em escaldão. pela janela viu que não ia tirar o casaco das costas do sofá nem calçar as botas. enterrou a mão no bolso e tirou-a já com um cigarro.
gonçalo vai à rua. as árvores de pingos reluzem os candeeiros e os faróis. os vidros escorrem vapor. a noite espalha-se quente e abafada. tira a luva para sondar cigarros no bolso do forro do casaco e tira um. a chuva recomeça e o cigarro não foi aceso.

rumo


não encontrei onde me agarrar. não entendo onde terminam os braços e começam as mãos. não vejo mais que umas toscas formas e cores indefinidas ou por mim desconhecidas. vou ao encontro daquilo ali, que talvez seja qualquer coisa. vou de encontro. não descubro matéria sólida, não descanso em pensamentos fáceis ou imediatos. não me sento em piso fértil ou seguro. não me sento, não consigo pousar. o que aqui estava mudou de sítio. existem marcas do que parece ter sido alterado, ou quero acreditar que foi alterado, que isto não é só um sitio disforme, imperceptível. tão vago que continuo sem entender se o meu braço é extensão do meu corpo e se as minhas mãos começam, quando meu braço termina. quero é agarrar depressa qualquer coisa, sem escorregar. percebe-se o inicio de marcha. o meu corpo solta-se em sintonia com o movimento e equilibra-se o possível, contrariando a queda. há aqui uma intenção difusa de se ir para algum lado. derrama-se no suposto piso qualquer coisa de novo, na medida em que o espaço transforma-se, ao avançarmos. sendo que parecemos avançar. as cores mantêm-se ténues, tão ocas que não entendo tratarem-se de cores, ou então esqueci-me da sua aparência e nomes.

absolvição

e pedi desculpa.
não sou de arrastar-me inchado em orgulho, que já observei muita coisa e sei responder com a cara dos outros, daqueles que dobram membros a mando. custa-me pouco. leva-me muito menos, porque involuntariamente já o pulso está estendido e suspenso na oferta mais que antecipada e sem ordem atiro-me. é feminino? qualquer coisa menos outra coisa tem de ser obrigatoriamente antagónica. é a teoria, invariavelmente mastigada, do equilíbrio natural. é? não masculino é feminino? não acutilante é mole?
não sou de descansar em dúvida. tenho reparado que, perdão, sei desde muito cedo, que ao entregar-me em agrado, não atormenta meu espírito qualquer desconfiança ou segredo. o mal é devolvido e entregue, caso seja certo que de menor graça se fala.

domingo, novembro 14, 2010

vivo

…e era mais alto que uma árvore. Mais forte que um touro. Era o que parecia. Com uma pele torrada e engelhada, brilhante do desgaste ao sol. desceu pela rua às curvas, a passo furibundo, aos pontapés no ar, a praguejar. Ninguém quis chamar importante àquele instante, que era já hábito, que no escaldar do chão, logo depois do dia ao meio, as botas do Raimundo corressem a derreter borracha. Que o resmungar se confundisse com o silvar e o assobiar, mais ou menos quente como o próprio ar, ou que viesse mais ou menos pesado nos ombros, ou no sobrolho, dependendo do quanto calor rangia nas telhas e no vidros pequeninos das janelas aflitas a assar, na manhã, na tarde e antes do anoitecer, sempre que o arder do sol disparasse o bafo das chamas até ao pó dos lancis, da fachadas, dos alpendres. E quase sempre, era assim que a rua derretia, sacrificando a calçada e o alcatrão ao lume lento e doente dos dias de verão.
Na lavandaria, os vidros da montra escorrem gotas mornas que se entrosam no vapor morto. o chão

ausente

até diria, com agrado, bom olhos o vejam. mas de facto não o vejo muito bem. parece-me mais abatido. nesse estado faz sentido aparecer? porque não usou este intervalo para se pôr ao fresco? ou desaparecer mesmo? sim, efectivamente esteve ausente. mas fora daqui, não é? porque não aproveitou para sair de vez, daqui, de si, de nós? ir para longe? ou para nenhures, algum sítio para lá de qualquer coisa que consideremos longe? entende-me? para nós seria igual, mas a si fazia bem, não fazia? olhe que parece-me que sim. porque não passou por cá, já que não esteve longe? andou mesmo desaparecido… até tinha comentado isso, julguei que não voltasse. já pensou em sair de si? eu penso muito. nisso e noutras coisas, todas elas fora de mim. sempre fora de mim. o que quer isto dizer? bom, talvez se experimentasse, me conseguisse responder. mas está de passagem ou veio para ficar? faz bem, faz bem…

era só isso

de noite, na luz, iluminado, como se de dia tratasse, fico tenso
podia ser dia.
no recorte da luz, no desenho feito pela sombra, num corpo, num qualquer corpo, um exagero de peso
há aqui mais fantasmas do que era suposto. há aqui mais aparentes memórias do que a razão suspeita.
há aqui um cheio nada. um repleto e perplexo sentimento de vazia suspeita.
pode-se dizer que arrastando por aqui o corpo, pouco se percebe do que ficou atrás e do que avança para outra parte.
podia ser dia, que seria o mesmo, a diferença estaria somente, talvez, desconfio, no desenho da luz e na dureza ou recorte das sombras.
mas uma vez mais, é só uma suspeita e ainda assim, também esta, bastante frágil.
da sombra, do escuro, vem pouco sossego. da luz, pouca calma.
não há sono, nem dormência, nem incómodo. ou pelo menos, não estão convictamente presentes.
há só uma rua, com suas fugazes luzes e ideias fracas, de existências aparentes ou escorregadias.
há esta rua, e outras quaisquer, onde andei. e pouco me lembro dos outros caminhos.
há gente por aqui, mas não recordo se me atrasei por isso.
não consigo lembrar-me de algum episódio em que tenha acontecido qualquer coisa que me tivesse tirado deste estado. ou deste percurso.
há um ritmo. quer dizer, há uma forma geométrica, delineada, não sistémica ou compassada, apenas uma forma, neste caminhar.
aqui, de noite, há mais perguntas.
quanto mais luz há, quanto mais peso nas pálpebras, mas ardor nos olhos, quanto mais penoso o avançar e desbravar da imensidão branca e dura, por estas ruas, sinto mais dúvidas.
e se apagássemos?
- como?
- e se apagássemos a luz, ou o rasto?
- que ganhavas com isso?
- algo novo. remover o que é velho.
- é o que queres?
- é o que é possível.
- vais ficar melhor?
- respondo depois.
- depois será tarde…
mas preciso disso. julgo que preciso. julgo que preciso qualquer coisa. pelo menos é a ideia que tenho. é uma ideia que tenho. aqui exposto à claridade, dói-me a cabeça. e quando não dói estou a preparar-me para a próxima indisposição, que não tarda a vir. e mesmo quando tarda em chegar, é quase como se não demorasse.
é tudo muito frágil, muito volátil. dá-me a impressão que é assim.
- se calhar dás importância às coisas erradas.
- mas calhando, como sabes que são as erradas?
- não sei, mas é uma hipótese…
- tudo é uma hipótese.
- sim, e tudo tem diversas facetas.
- e isso ajuda-me?
- mas queres ajuda?
- pelo menos a luz podia ser mais ténue.
- era só isso, afinal?

segunda-feira, março 30, 2009

a cara

Ajeitei a cara porque tinha um olho quase em cima do lábio. Não sei bem o que quero ainda, mas gosto do castanho mel. Faz-me lembrar as manhãs em que comia torradas com mel e manteiga. Eu sei que não é um bom motivo, mas nós gostamos ou não das coisas por razões emocionais. Pelo menos comigo é assim. Também não é para usar todos os dias, é só no caso de me sentir estranho é que ponho esses. Segura-me aqui nestas orelhas que eu vou ali buscar uns queixos. Sim, gosto do meu, mas às vezes parece que se desloca mais para a esquerda e também acho-o demasiado esguio para este nariz. Que foi, o olho ainda não está bem? ah assustaste-me, fizeste cá uma cara…

aqui

É de carnaval esta rua. É dos carrosséis e dos cavalos de borracha a imitar madeira. É de luzes fracas e cores desmaiadas à paulada. Podia haver aqui crianças, mas as crianças foram todas para outra rua e ninguém me avisou. Ninguém me veio chamar para ir para a rua melhor. Ou maior. Esta rua é de tinta. E eu queria que parassem de rir. Eu queria que parassem de viver e que se virassem todos para mim. Porque eu escolhi esta rua. Eu sei que esta rua é a melhor. E estão todos enganados. Aqui há cores fracas e imitação de festas. Aqui há histórias contadas. Aqui estou eu.

sem saber

Primeiro senti o frio e deslizante toque da madeira daquilo que sinto ser uma guitarra. Parece-me. Não posso jurar porque não sei quantas cordas tem uma, nem sei as dimensões exactas, mas será uma guitarra ou um instrumento da mesma família. Agarrei-a, como se tocasse contrabaixo, colocando-a entre as pernas. As cordas estão bem esticadas. É normal. Mas não deixo de pensar nelas como armas. A ponta dos dedos desliza no aço com um certo respeito, um qualquer receio de que as cordas saltem ou se quebrem. Eu não sei tocar guitarra.

Continuam aqui. Não sei quantos. Apenas sinto estalos na sala. O chão a ceder ao peso ou corpos a mudar de posição pelo demasiado tempo em que mantêm de pé. Eles.

Há um cheiro qualquer a flores ou plantas e a diluente. A porta é de metal e o sitio deve ser amplo e vazio, dado o eco causado pelo estrondo da porta ao fechar. Não sei ao certo quantas pessoas aqui estão. Não sei o que fazem, nem o que pretendem. Não sei porque me colocaram nas mãos uma guitarra.

Ontem deixei em cima da mesa do meu senhorio, um bilhete a pedir-lhe que não tocasse à minha campainha durante a noite. O estranho é que não entendo o que me deu para entrar na casa dele. A porta dele estava entreaberta e não vi ninguém, mas também não procurei saber se alguém estava em casa. Apenas entrei, fui à sala e deixei o bilhete em cima da mesa. Quando saí pareceu-me ouvir a porta da minha casa fechar. Mas não posso garantir que tenha sido isso, porque eu não me lembro se a deixei aberta ou fechada. Mas se não vive ninguém na porta ao lado e se o som vinha do meu piso, que outra coisa poderia ter sido? Não voltei a casa. Como tinha a chave da casa do último piso, porque ma deixaram uns amigos que se ausentaram, eu fiquei por lá. Eles ausentaram-se há, parece-me, uns meses. Mas não faz muito sentido, porque foram de férias. Julgo… a minha casa está, portanto, por conta própria. Assim como estão por conta da minha casa, quem quer que lá esteja, se estiver. E a casa dos meus amigos ficou pró minha conta. Umas horas. Até eu me dar conta que estou aqui, sem saber porquê, nem com quem. Por conta de quem estão as outras casas? Quantas casas já vi? Em quantas já dormi? Dormi aqui também? Não me importo de aqui estar. Não me importo de não ver. Só não me deixem sozinho aqui. E levem a guitarra. Não me serve de nada. Mas não falei.

sábado, outubro 18, 2008

um palco

Não tenho a vida a andar para trás. Não estou de viagem ao passado sem bilhete de regresso. Não é uma revisita. Não sinto um retrocesso emocional, uma analepse nostálgica nem estou preso a glórias gastas. O mundo não está ao contrário, o mundo não está de pernas para o ar. A minha vida adiantou-se, passou por mim e tive um vislumbre. Assustei-me perante a constatação de que a deixei ir mais longe. Para além de mim. Mais rápida, ultrapassou-me. E eu deixei de compreender onde me enfiei.

No palco, tu não estavas, embora te fitasse mesmo à minha frente. Embora não te largasse mordendo-te com os olhos, inspeccionando todas as covas da cara, gestos fabricados, encenados e outros mais ingénuos. Embora te devorasse em aflita contemplação, não te vi. Multidão de estrangeiros em êxtase contigo e eu aqui deslocado, com saudades da dor que me emprestaste. Confuso. Impedido de me fundir na amalgama em chamas, colado estático ao vibrante chão. Já não te procuro, vais à minha frente sem olhar para mim. Os segredos que cantas não contam histórias que eu tenha vivido. Esse pedaços eu não me lembro e falas de mim enquanto estive ausente. Mas todos sabem. Onde fiquei? Quando te encontro? E porque me baralhas com confidências que me confias mas não reconheço? Continuas a falar para mim, julgo, mas não me revejo, nem sei quando te perdi, ou quando adormeceste. E tudo o que precisava era que acalmasses e me confessasses que estamos cá os dois escondidos, camuflados, travestidos, mas juntos. Que me aninhasses nos teus lamentos que foram meus e me segredasses que o resto são manobras toscas para saciar a fome de mudança. Que me pedisses para mantermos a farsa e bailássemos com um mundo iludido.

Há verdades que se deviam ficar pelas fantasias.

quarta-feira, outubro 15, 2008

tolo (canções)

Oh diabo! Onde perdeste as botas?

Porque não consegues tornar-me um homem?

Tu, mosquito, onde besuntas as patas?

Quem é que me cheira hoje?

Quem é que me pica hoje?

Eu sou um espantalho, um cabide de pau.

Troco uma mão por sapatos

Tenho a cabeça de um calhau.

Oh gatuno, de quem tiraste a cara?

Porque não me roubas a mim?

Sou pelintra, sou arara, tenho os bolsos cheios de nada?

Eu sou uma cana, parafuso sem porca,

Um código numa única barra,

Sou um trapo sem tecido.

Oh Senhora, a quem pedi eu este zero?

Esta tola apatia?

Na minha terra há rei,

Que mesmo burro monta o poleiro.

Há juiz sem valores,

A pregar como martelo.

E eu, um bobo sem corte,

Sou o tolo do senhor.

Eu, o tolo do senhor.

Oh diabo, onde perdeste as botas?

Porquê ser homem, é tonto?

Diz Senhora, pariste quem, a mim, mais alguém?

Oh mosquito não tenho sangue?

Sou latão, sou palha?

Sou um degrau numa janela?

Sou o tolo do senhor.

Eu, o tolo do senhor.

segunda-feira, outubro 13, 2008

vago (canções)

Estou incompleto e faço-me de entulho

Apanho-me por entre furos, às vezes não encho a mão

Minúsculo instável

 

Vejo um trilho e monto-me sem manual

Atiro-me atropelado

Há outro que deambula, adivinho

 

Sem brilho

 

Sorrio encardido mordendo razões, sumido

Procuro

 

Estou paralisado e faço-me de embrulho

O encanto foi dormir

Deixou-me dinheiro para consolo

Há mais quem rescalde, murmuro

 

Sem brilho

 

Para belo e adormecido

És pouco sereno, pouco vendido

Para poeta abatido

És muito vago, pouco sentido

 

Sorrio encardido mordendo razões, sumido

Procuro

 

Sem brilho

o quarto

Há um segredo debaixo da almofada, que repete da mesma forma os dias. Há um gravador com uma mensagem fastidiosa, desconfortável mas necessária, que debita reguladas instruções e tarefas a executar no dia que se levanta. Há uma luz da mesma forma matemática e geometricamente precisa a desenhar volumes e riscar superficies. Uma luz quotidiana, eficaz, regular, moderada, ecológica, natural, económica e desinteressada sobre tudo, a não ser desempenhar a simples função de iluminar sem pretensões, um espaço ritmado por ordens compassadas. Há um som de discurso cuidadosamente articulado e sílabas vincadas e imaculadamente ditadas, um único som que preenche maquinalmente o silêncio absoluto nos seus calculados intervalos. Há um quarto morto com a teimosa disposição dos móveis despidos de valor e intenções a não ser as de preencher o menos óbvio espaço, o menos útil espaço e aí ocupar o que lhes foi permitido. Há contornos tristes de reflectidas frias luzes e desanimadas cores mas sem disso saberem, por ter-lhes sido ordenado que não provocassem nenhuma sensação, que não induzissem ao que quer que se possa sentir, um único pensamento, uma única dúvida, um único sentimento, uma única emoção. Estas superfícies foram programadas para não serem vistas, ouvidas, cheiradas, repetidas, memorizadas ou adivinhadas. Os momentos passados neste espaço são invisiveis. Há um corpo em posição suspensa. Em desalinho, dissonante com o quarto, desajustado ao espaço, apenas condizente na expressão simples, mínima e serena, de um rosto recto, inexpressivo, intemporal. Há um corpo justo, proporcional, ponderado, propositado.

 

O dia hoje, lá fora, é diferente dos outros dias. O dia lá fora, é, tal como nos outros dias, diferente de todos os restantes. O dia é diferente deste quarto, mas lá fora. O dia lá fora é sempre diferente, exceptuando a única coisa em que o dia é igual aos outros. O dia é apenas igual aos outros dias, lá fora, pelo facto de que tu não estás lá fora. Tu nunca estás lá fora e nisso os dias são todos iguais. Neste quarto, tens de ser diferente todos os dias, como o são os dias lá fora, com a excepção de que nunca estás lá fora. Tu estás sempre neste quarto e essa é a única coisa que te é permitida ser igual todos os dias. Os dias cá dentro têm de ser todos os dias diferentes, tal como são lá fora. Os dias cá dentro são sempre diferentes, com a excepção de que esta mensagem é igual todos os dias e tu nunca estás lá fora. Hoje vais ser diferente como és diferente todos os dias, excepto lá fora, onde és sempre igual porque nunca estás…

O dia hoje, lá fora, é diferente dos outros dias. O dia lá fora, é, tal como nos outros dias…

sexta-feira, outubro 10, 2008

parto

Porque ninguém vai hoje entrar neste hospital. Porque eu não sinto que ajude alma alguma. Porque as luzes verdes amarelam os bancos e já doentes tossem estas portas. Porque o pó enche este silêncio. Porque a sala dormida de febre. Porque as esperas suam desespero e ódio. O vírus radia da TV. A noite aqui não entra. Hoje ninguém entra neste hospital. A morte já está cá.

 

O telefone. A emergência. Quanto é que dou a alguém? Quanto é que empresto de ajuda, quanto me entrego? Quanto é meu desta sala de bocas e gritos digitalizados amarfanhados e diluídos em piadas mortais? Quanto há de humano nestes ecrãs e telefones. Quanto há de urgente nestas vozes? Quantas vidas salvei? Quantas vezes matei?

O telefone toca. É morte?

 

Os pés. Mexer. A casa. O escuro. Luz. Sair de casa. O telefone. Não é dor. Não tem nome. Tenho nome? Falar.

 

Com contracções de 3 em 3 minutos.

Peço desculpa mas não estou a compreender, está a dizer que VOCÊ está com contracções? Que vai entrar em trabalho de parto?

Sim, por favor! Mande alguém rápido!

Está alguém consigo?

Não, estou só.

(…)

Dê-me a sua morada, por favor.

 

Não são dores, não há nome para isto. Não há tempo para isto, não corre nem anda tempo para isto. Corredor, portas, parquet, luz, escadas. Escadas não. Luz, gás, onde está a mala, corredor, traz adiante, pés. Pede aos pés, mexem-se, não há dor, não há nome para isto, venham rápido. Corredor. Há tempo? Não é dor. A chave, os pés, mexam-se. Quanto tempo? Há tempo?

 

Passa-se qualquer coisa de errado, não compreendo.

Minha senhora, não vê o meu estado?

Mas isto é uma piada?

Foda-se! Levem-me.

Não há tempo.

 

Preta! Dona Preta! Ajuda-me! Esta mulher não me vai levar a lado nenhum.

 

Meus Deus, mas está quase a nascer! Mas não vai para o hospital?

Mas você está a ver o mesmo que eu?

Porra de mulher, mas não é uma ambulância, mas não vai nascer um bebé?

 

Isso Preta! Dá porrada nessa puta e levem-me daqui que não aguento.

 

Mas não vê que é um homem?

E não vê que a criança vai nascer?

Mas vai sair por onde?

Caralho, salvem este homem!

 

Eu vou morrer Preta. Eu não aguento.

 

Vai sair por onde?

 

E insiste.

Eu só estou grávido. Eu não tenho respostas.

 

 

Mas a obrigação da senhora não é levá-lo? Este homem precisa ajuda.

 

Preta, eu não aguento. Preta, eu vou. Parto.

terça-feira, setembro 30, 2008

plástico

Porque vi plástico. Porque se entra pelas pernas, quase, e tirei dos bolsos o metal todo que me devolviam se não suspeitasse de mim. Se para mim fosse simples, como o é na verdade e se não me sentisse violado, intrujado, reprimido, oferecido, patético e depois violado e roubado novamente. E às vezes bem me acuso de ser menos metal e mais mineral. Os bichos andavam. Sou o ar o suor o mundo esta sala este dia. E eu inquieto. Que não se dançava nesta luz. Que se maquinavam os desenhos pelos cantos e pelos corredores, nos átrios, nas pistas, os recortes, os focos, os deslizes, os vislumbres. Escorregavam as cores acutilantes e suaves e de bom tom e de arrojados efeitos e eficientes traços e faces brilhantes de caras deslumbrantes e um nada. Um nada. Uma deslumbrante, mais que extraordinária, infinitamente esplêndida explosão de nada.

quarta-feira, setembro 24, 2008

pai

Meu pai, beija-me por favor. Meu pai, dá-me essa tua mão e segura-me certo como fazes instintivamente. Não me largues solto na rua. Meu pai, diz-me que és meu pai para saber que te pertenço e enxuta minhas lágrimas com teus dedos seguros. Meu pai, hoje não quero ser homem e entrego isso a ti. Meu pai, os meus dedos nem sempre sabem certo como fazer o que os teus desenham. Meu pai, há dias em que sou só um rascunho e os meus traços ficam gastos nas pontas. Pai, abraça-me e não me deixes cair. Pai, às vezes as minhas mãos escorregam no ar e eu não lembro como fazes para manter as tuas dominadas e copiar-te. Pai, eu hoje sou outra pessoa e não aquela que fizeste. Meu pai, os homens não crescem, como os pais. Os homens são embriões e eu não sei segurar neles. Meu pai, o mundo segura-se ao colo mas os braços que o sustentam não são vigas, como são os teus. E escapamo-nos. Pai, os outros caem e eu não consigo evitar ser arrastado. Pai, eu hoje sou outra pessoa mas também antes fui.

zero

Era pequenino. Do tamanho de uma formiga. Consegui vê-lo porque o fundo de tão branco o descobriu. Havia tanto brilho em redor que ironicamente se destacou pela palidez. E de imediato entranhou-se um desconforto, uma desconfiança, uma doçura. É por puro preconceito que se sorve esta misericórdia e não há de nenhuma forma indefesa formada. E lá estava minúsculo, quieto. Do que menos há de brilhante, o mais radioso. Mas depressa esquecido. Do menos orgulhoso, vaidoso, narciso, emproado, o mais proeminente e num instante ignorado. A estrela sem cintilo. Esconde-me também. Mete-me torcido no furo, pega-me e dobra em partes muitas, que bem esforçado eu bem caibo e sobra-me espaço de sobra. Deixa-me dormir um pouquinho só, aqui metido no escurinho, no silêncio e longe dos dias todos ao sol, á luz, ao burburinho das conspirações e promessas dos maiores e dos mais capazes e dos mais ambiciosos e mais amados e amantes. Deixa-me deitar um pouquinho aqui nas entranhas da minúscula falha, afastada das conversas de cores e mundos, viagens de célebres feitos, de imagens de glória e terror e de indiferença e de gargalhadas, de choros, de lástimas, de dós, de gentes, de todos os que não são gente também, e dos outros que não todos, e de todos além desses. E longe de mim. Hoje quero apenas diluir-me no pequenino furo, na parte não visível. E deixar-me esquecer as coisas das coisas todas que fazem tombar os heróis e os tristes. Que cobrem de glória e vergonha todos os que, de todos, são cobertos pelo mundo, pela multidão, pelo esplendor, pelo horror, pelo impulso inevitável e incontrolável que arrastam todos aqueles que, de todos os seres, são os que caminham, que desbravam, que arrasam e se inconformam com o que de menos ofuscante tem o tempo e os instantes e as partes mais e menos virgens destruídas e bem ou mal construídas do mundo. Fosse possível sacudir para o chão minha pele. Descascar o meu corpo. Despir o peso e a forma da minha carne, dobrá-la e pousá-la na prateleira acima da minha vista, afastada. Fechar num frasco baço, opaco, o meu pensamento e o meu ser, para que não possa lembrar-me de quem já não sou. E deleitar, ignorante, o vazio. Como os brevíssimos segundos que encerram um orgasmo. E ficar suspenso nesse vácuo por toda a nulidade.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Eu, diabo

Encornei-o nas axilas mas sem o magoar e ainda assim ele guinchou como um porco espetado. Hás-de rebentar todo e inchar. Tenho o diabo na verga, penso, sem ao mesmo tempo achar que é despropositado o pensamento, que não sou de reflexões, ou que não deveria sê-lo porque a semente a espalhar é a do mal e não a da dúvida pois isso é acção de outros. Eu a pensar é que não vem nada a calhar que o outro precisa é de ser fodido como puta a ver se esta merda pega fogo e pouco falta que está aqui um calor dos infernos. E outro pensamento idiota. Que caralho, mas deu-me agora para estas fraquezas, com franqueza! Ainda me ponho doente como o outro e o que há a fazer ainda é muito que pouco podre anda tudo e para me pôr bom ainda tenho que enrabar estes cornudos de merda que só sabem é pedir e roubar e comer e mugir e rugir e gabar-se e conspurcar-se e devorar-se e pavornear-se e foder-se e foderem e foderem-se e mesmo assim ainda não se comeram todos uns aos outros para acabar com esta cambada de rotos de uma vez, mas nem isso valem, nem isso merecem e o castigo é que apodreçam na merda uns dos outros até o sempre e eu cá estou para ajudar a chafurdar. Cabrões… e como isso me faz feliz. Hei-de comer-vos todos e deixar-vos minguados e raquíticos esfomeados mais que se passassem fome, mais que se não tivessem nunca comido e deixar-vos a morrer sem que a morte tenha piedade e sem vos levar. Sem que vos tire das costas o peso das montanhas de estrume que andaram a fazer e a empilhar, alarvos toda a vida, a dejectar merda em cima dos outros, a estrangular e fazer tudo, todos, engolir a infectada esporra dos vossos nulos membros. Eu diabo, vou alimentar o vosso virús, a vossa praga, amontoá-la, multiplicá-la, avultá-la e foder-vos até que os obrigue a perceber que estão a comer o vosso próprio vómito, que vejam como pobres e miúdos são, até que abram os olhos e entendam que o inferno, comparado com o que edificaram, é um paraíso e que lá no inferno não vos quero. Até que ganhem vergonha e com isso sofram e nadem na porcaria que escolheram para vosso mundo. E nesse dia deixo-vos, que mal não haverá capaz de suplantar a consciente putrefacção em que se arrastarão. Mas não tenho tempo para isto, para reflectir, isto não é obra minha, a minha verga é o diabo. E não é vossa, como pensam e gritam vocês inchados de orgulho, seus anões imundos. Que a vocês nada tenho a dar, nada sou e como-vos não pelo prazer de carne, que não tenho, mas para me servir de perversão que é meu vício. Não falem de mim que vossas bocas asquerosas não são dignas de proferir meu nome. Vocês, menos que insectos, não terão mais que a minha contaminação e gravem em vossas cabeças que eu não estou ao vosso lado, eu não vos amo, eu vos desprezo, eu vos piso. Eu tenho uma verga do diabo, um membro malfeitor e ele expelindo-vos o mais hediondo mal, insemina bondade, comparado com o vocês fecundam.

quinta-feira, setembro 04, 2008

a diva

É fácil, não é? É só dizer “amo-te”. Às vezes só ao estalo!

Enquanto pianos mordem guitarras e violinos esporram notas sem sentimentos mas eficazes, tu vais dobrando essa boca de porca e enxutas, ridícula, uma lágrima cristal perfeita triste e crocodila.

 

Chorem-me Levantem-me abracem-me comam-me. Sou vossa. Puta disfarçada. Mas com ar de menina. Linda sou. Como todos querem.

Vê lá se ainda te comem morto por seres tão mordaz oh corno

 

É fácil, não é? É só dizer “amo-te”. Rebenta essa cara com pus.

Enquanto a tua mão flutua e desliza no vestido criança homem e tua carne ri com fome. Vai gozar a alma doutro. Gritas altiva e com corpo pesado descaído de perna flectida toda tu indefesa destruída.

 

Levem-me amem-me beijem-me mordam-me. Sou fraca, sou leve. Escrava mal amada. Um doce esquecido perdido. Como o mundo pede.

Vê lá se ainda te fodem a tromba por seres amargo oh filho da puta

 

O mundo é meu

O mundo é meu

O mundo é meu

E não me canso de comer

 

de ferro

É verdade, voltei! Voltei mesmo há uns dias. O quê? Ainda não tive tempo para nada. Mas já vim há uma semana, ou mais! E estou muito bem, não estou? Estou como nunca estive, com uma saúde, que faz favor! Sinto-me mesmo novo. Mesmo com ar fresco e cheio de vontade de ir atrás das coisas que sempre quis fazer. Não, mas não penses que não fiz nada até então. Oh pá, sabes lá tu. O quê? Parece que não me estás a ver! Então não sabes bem como sou? Eu não paro. Eu sou do tipo que precisa de um dia com 48 horas e mesmo assim, he he he, é de andar a correr de um lado para outro. Não tenho tempo para pensar, pá. Isso é coisa para meninos, para quem ainda respira. Eu ando a mil, ainda me dá uma coisa má. O meu médico já me avisou milhões de vezes – tens de parar, pá, tu tem cuidado que a vida não dura sempre – e não é verdade, então é por isso é que corro, ora então! Se ficasse parado a ver a vida passar ia ser melhor? Ninguém entende? Tenho é de aproveitar! E tenho uma saúde de ferro! Ui, é preciso um comboio para me derrubar. Ainda há de vir a doença que me bota abaixo! Sinto-me novo pá! Eu até tenho medo, com tanta energia. Já imaginaste se me dá uma coisa má? O meu médico já me avisou – tu tem cuidado pá! – mas eu lá consigo estar parado… isso não é para mim. Tenho muita coisa para fazer, não tenho tempo para pensar em descanso, nem tempo nem vagar, que os dias são curtos e um gajo se não se põe a pau é atropelado pelos dias. Eu que o diga que ando a correr de uma lado para o outro. Que vida esta que um gajo nem pára para respirar. Ainda me dá uma coisa má, assim louco esbaforido como ando quase sempre. Mas tenho uma saúde de ferro. O meu médico já me disse – olha tu tem cuidado que a saúde esgota-se – o que é que ele sabe? Ás vezes acho que sou de ferro. Acredita que é verdade. É preciso um canhão para me derrubar. Se pudesse vender saúde, ficava milionário pá. Mas depois com tanto dinheiro nem dormia, ainda dormia menos do que agora e o que eu precisava era de dias com 48 horas. Nem sei quando vou parar. Tenho tanto para fazer. Lembras-te das coisas que te contava, do que queria fazer? Dos planos que eu tinha? Está tudo a andar. Tivesse eu tempo para tudo! Que horas são, pá? Olha, o que fazes durante esta semana?